domingo, 4 de julho de 2010

PARTE B - Capítulo 2 Bons alunos são repetidores de informações, alunos fascinantes

PARTE B
Capítulo 2
Bons alunos são repetidores
de informações, alunos fascinantes
são pensadores
Uma mente agitada
O professor Júlio César era super engraçado e, ao mesmo tempo, tinha uma inteligência muito aguçada. No começo, rejeitava as idéias de Romanov, mas, à medida que se conheceram, tornaram-se amigos inseparáveis.
Romanov disse-lhe certa vez um pensamento inesquecível que ele anotou no espelho do seu banheiro:
Os professores não são valorizados socialmente como merecem, não estão nos noticiários da TV, vivem no anonimato da sala de aula, mas são os únicos que têm o poder de causar uma revolução social. Com uma das mãos eles escrevem na lousa, com a outra, movem o mundo, pois trabalham com a maior riqueza da sociedade: a juventude. Cada aluno é um diamante que, bem lapidado, brilhará para sempre.
O pensamento de Romanov renovou a paixão de Júlio César pela educação. Ele era professor de línguas havia mais de 15 anos, mas estava desanimado e perplexo nos
últimos tempos por observar o aumento gradual de ansiedade dos alunos. Percebia que a mente deles estava cada vez mais agitada e inquieta. As conversas paralelas e a agressividade haviam se expandido muitíssimo.
Júlio César, Romanov, Jéferson e outros professores procuraram uma explicação desse comportamento dos alunos, que se tornara um fenômeno mundial. Depois de exaustivas pesquisas descobriram finalmente uma hipótese da síndrome SPA, Síndrome do Pensamento Acelerado, que explicava que a edição dos eventos da vida nas sociedades modernas atuava no teatro da mente humana e modificava a velocidade de construção dos pensamentos e das emoções.
As pessoas estavam agitadíssimas. Tudo era muito rápido. As pessoas comiam, falavam e trabalhavam aceleradamente. Até os filmes atuais tinham uma velocidade muito maior das cenas do que os filmes do passado.
Entenderam que os alunos não tinham culpa por ser ansiosos. O culpado era o sistema social que expandiu o número de necessidades, nem sempre necessárias, e o número de informações como nunca ocorreu na história, entulhando a memória dos jovens, fazendo-os construir pensamentos numa velocidade jamais vista, a não ser em tempos de dificuldades e calamidades. Os alunos pensavam em "dezenas de coisas" num pequeno espaço de tempo. Os professores compreenderam que toda vez que se aumenta a velocidade do pensamento gera-se ansiedade, inquietação e insatisfação.
Descobriram que atualmente o conhecimento dobra no máximo a cada cinco anos, o que no passado demorava séculos. O excesso de informações, somado ao desespero pelo consumo, a preocupação excessiva com a estética e a moda registravam-se no centro consciente da memória das pessoas, deixando inúmeros arquivos abertos.
A mente dos alunos não parava de acessar as informações desses arquivos, como um computador que não parava de operar, gerando uma produção intensa de pensamentos sobre atividades, preocupações, coisas do amanhã. Desenvolviam vários sintomas. Tranqüilidade nem para remédio. Paciência evaporou-se.
Além de ansiosos, são irritados, possuem uma emoção flutuante, num momento estão alegres, noutro, explosivos. Não se concentram, não se interiorizam e ainda por cima detestam a rotina, por isso não se cansam de dizer: "não tem nada para fazer nesta casa!".
E a sala de aula? Freqüentemente é o último lugar em que querem estar. Para quem tem SPA, os professores são chatos, as aulas são insuportáveis, o sinal de término de aula é uma maravilha. A agitação dos pensamentos e a ansiedade são tão intensas que
os jovens não extraem experiências dos seus erros e sofrimentos. A troca do cenário no palco da mente deles é tão rápida que eles não elaboram as experiências, não refletem sobre novas atitudes, não crescem diante das dificuldades. Continuam imaturos, mesmo adultos.
Para Romanov e seus colegas, os professores eram cozinheiros do conhecimento, que preparavam o alimento para nutrir a inteligência de uma platéia sem apetite. Nada é mais frustrante para um mestre do que ensinar para quem não quer aprender. Por isso, a grande maioria dos educadores estava adoecendo nas sociedades modernas.
Milhares de professores estavam se deprimindo, desenvolvendo pânico, doenças físicas, não apenas devido aos seus problemas internos, mas à crise da educação. Alguns tinham sintomas cardíacos em sala de aula, outros desenvolviam gastrites e úlceras. Muitos sabiam que a educação estava no caos, mas, por não estudarem a construção dos pensamentos, não sabiam que alteramos o seu ritmo.
As crianças não corriam mais atrás das borboletas, não brincavam nas árvores, não soltavam pipas. Os jovens não contemplavam o belo, não inventavam, não libertavam sua imaginação e nem viviam a vida com aventura. Transformaram-se em consumidores.
Algumas pessoas culpavam os pais por não colocar limites nos seus filhos. Entretanto, Júlio César e Romanov descobriram que os pais tentavam colocar limites, mas, devido à ansiedade gerada pela SPA, não conseguiam. Pais e mães estavam confusos e inseguros, sem saber como agir diante dos seus filhos. No passado, um olhar de um pai ou mãe causava um impacto nos filhos, atualmente nem os gritos causavam alguma reação.
A destruição da auto-estima
Alguns professores agrediam os alunos pensando que eles eram culpados por tamanha agitação. Não sabiam que o sistema social era o grande criminoso, que foi ele quem provocou uma ansiedade desumana no teatro da mente dos jovens. Pior ainda, não sabiam que, além da SPA, o sistema estava destruindo a auto-estima das pessoas, colocando modelos magérrimas pelos padrões da medicina como parâmetro do belo e da auto-satisfação.
O padrão incomum de beleza difundido na sociedade penetrava no inconsciente coletivo dos jovens, produzia conflitos com a auto-imagem e gerava uma rejeição pelo próprio corpo. Milhões de jovens chegavam diante do espelho e pareciam se perguntar: espelho, espelho meu, existe alguém com mais defeitos do que eu?
Muitos sentiam que nenhuma roupa lhes caía bem. Alguns se deprimiam, outros desenvolviam anorexia nervosa, bloqueavam o apetite e emagreciam muito e ainda outros desenvolviam bulimia, comiam sem parar e depois provocavam vômitos. Havia até aqueles que desenvolviam vigorexia, malhavam sem parar nas academias e tomavam remédios sem orientação médica para ganhar massa muscular para ser valorizados. Não sabiam que o maior valor estava na inteligência que possuíam.
Os jovens não sabiam que a grande maioria das modelos também sofria com a ditadura da beleza, sempre rejeitavam uma área do corpo, faziam regimes maquiavélicos para não ser rejeitadas. Muitas desenvolviam também anorexia, bulimia e depressão. Mendigavam o pão da auto-estima. O sistema as usava e as descartava se ganhassem alguns quilos a mais.
Os professores queriam gritar para os jovens que a beleza está nos olhos do observador. Mas, devido à síndrome do pensamento acelerado e à ditadura da beleza, os jovens não se observavam como belos, bonitos, tanto interiormente quanto exteriormente.
Com auto-estima zerada ou diminuída, os jovens tornavam-se insatisfeitos e canalizavam sua insatisfação para consumir mais. Assim, tornavam-se presas do mais agressivo predador: o mercado.
Júlio César, Romanov e seus colegas queriam que todos os jovens tivessem um caso de amor consigo mesmos e fossem revolucionários na sociedade. Revolucionários que criticassem o sistema social, que consumissem mais idéias do que bens materiais e que tivessem a coragem de não comprar em lojas e empresas que só usavam modelos magras para vender seus produtos.
— Abram seus olhos! Não sejam escravos do padrão de beleza da mídia! — eles diziam. E acrescentavam: — Cada um de vocês possui uma beleza única, especial, inigualável, não importam seu peso, sua altura, a cor da sua pele nem a anatomia do seu corpo.
Por colocar música ambiente em sala de aula, tal como o som da música de Beethoven, Bach, Mozart, Chopin, cada aula se tornava um espetáculo. Além da música ambiente, por fazer os alunos sentarem-se em círculo e debater as idéias, os professores
conseguiram aliviar a SPA e diminuir pelo menos 50% da ansiedade de seus alunos. Dia a dia a escola passava por transformações.
Estava ocorrendo algo encantador: os alunos estavam aprendendo a ter uma mente livre, a questionar a si mesmos e ao mundo, como o jovem filósofo Platão aprendera com Sócrates. Porém, era preciso avançar muito.
Os professores, estimulados pelo intrépido Romanov, resolveram não apenas contar algumas histórias de vida em sala de aula, mas também humanizar o conhecimento, ou seja, falar sobre a vida dos cientistas, comentar seus defeitos, desafios, lágrimas, ousadias e rejeições que sofreram.
Queriam que os jovens abrissem os horizontes da sua inteligência por entender que, por detrás de cada aula que presenciavam, existiam as dificuldades dos pensadores. Desse modo, o conhecimento deixou de ser insosso e passou a ter um tempero existencial.
Comentaram sobre os medos, a coragem e as angústias de Einstein. Disseram que foi um grande gênio, que produziu excelentes idéias, mas errou também. Errou principalmente ao deixar seu filho doente mental num hospital psiquiátrico por mais de vinte anos e nunca mais o ter visitado. Os alunos entenderam que o gênio da física conheceu muitíssimo o mundo de fora, o físico, mas tinha seus problemas, como todo ser humano, no mais complexo dos mundos, o psíquico.
Desse modo, percebiam que ninguém era perfeito, seja professores, seja pensadores. Assim, aprendiam dia a dia a deixar de ser repetidores de informação e perdiam o medo de pensar e produzir conhecimento. Havia reflexo até nas provas, os alunos passaram a ser mais inventivos. Todo esse caminho produzia finalmente uma educação que inspirava a emoção, libertava a inteligência, expandia o imaginário.
Agredindo um colega: o fenômeno bullying
Bons professores conhecem bem sua matéria, professores fascinantes conhecem o funcionamento da mente. Por se dedicar em ser um professor fascinante, o professor Júlio César foi aprendendo a lidar com conflitos em sala de aula, com as discussões entre alunos e com os atritos dos alunos com seus professores. Mas de vez em quando esses conflitos eram tão graves que o tumulto parecia incontrolável.
Certa vez, presenciou uma reação entre dois alunos que o abalou. Viu Alex ofendendo intensamente Fernando. Fernando vivia viajando nos seus pensamentos, era distraído, não se concentrava, sofria por antecipação, preocupava-se muito com as coisas que não aconteciam. A ansiedade dele era bem intensa. Além disso, tinha dificuldade de aprendizado. Não conseguia acompanhar a classe.
O jovem era tão disperso que freqüentemente fazia perguntas sobre um assunto que o professor havia acabado de explicar. Outras vezes, fazia comentários que nada tinham a ver com o assunto tratado. Muitos dos seus colegas zombavam dele pelas costas.
Os alunos não sabiam o valor da inclusão, a importância de conviver com pessoas diferentes. Não compreendiam que os maiores erros cometidos pela humanidade ocorreram por não aceitar e respeitar pessoas diferentes, seja no campo intelectual, social, racial, cultural ou religioso.
Júlio César era paciente com Fernando e admirava sua participação. Como Romanov, pensava que jovens calados são bons para formar um exército, mas não um time de pensadores. Não queria uma platéia de robôs.
Após Fernando fazer mais uma pergunta sem relação aparente com o assunto ensinado, Alex não se agüentou e gritou do fundo da classe:
— Burro! Mongolóide! Acorda!
A turma caiu em gargalhadas. Alex era considerado o líder da turma e Fernando era considerado o patinho feio da classe. Humilhado, lacrimejou os olhos, sentiu um nó na garganta. Logo depois, levantou-se e ameaçou sair do ambiente.
Júlio César imediatamente fez uma intervenção:
— Por favor, Fernando, não saia. — E olhando para toda a classe e depois para o agressor, comentou: — Você acabou de cometer um grave erro contra seu colega. Zombou de sua capacidade intelectual. Fez dele um palhaço e objeto de deboche diante de toda a turma. Sabia que muitos pensadores tinham o perfil psicológico de Fernando? Eles brilharam porque não tiveram medo de perguntar, de se expressar.
Alex tentou disfarçar escondendo seu rosto. Mas o professor fez uma célebre defesa da inclusão social. Disse que quem não é capaz de aceitar pessoas diferentes comete atrocidades nas relações sociais. Comentou sobre a escravidão dos negros, a morte de seis milhões de judeus na Segunda Grande Guerra, conflitos entre cristãos e muçulmanos na história, a turbulência na região da Caxemira na índia e em muitos outros lugares.
Comentou ainda que a nossa espécie está doente, doente pela discriminação, pela falta de respeito, solidariedade, pela dificuldade de inclusão social. E acrescentou:
— Os fracos julgam e excluem, mas os fortes incluem e compreendem. — Em seguida, ainda não satisfeito, perguntou para Alex: — Sabe como se chama esse tipo de agressividade entre os colegas?
Alex não soube responder. Em seguida, o professor fez a mesma pergunta para a classe. Mas ninguém sabia a resposta.
— Fenômeno bullying — respondeu com segurança.
— Que fenômeno é esse? — perguntou Joana, curiosa.
— Bully quer dizer valente, agressor. Toda vez que os colegas agridem, diminuem, discriminam ou rotulam outros colegas, eles cometem o fenômeno bullying, se tornam agressores, controladores e até carrascos emocionais deles. Entre as crianças e adolescentes existem muitas brincadeiras. Algumas são saudáveis, estimulam a criatividade e o prazer. Entretanto, outras machucam profundamente a emoção e geram traumas na personalidade.
Alex engoliu saliva e calou-se. Júlio César também havia sido vitima do fenômeno bullying na adolescência. O assunto tocava-lhe fundo, por isso resolveu falar sobre alguns segredos da mente humana para compreenderem melhor como esse fenômeno pode prejudicar drasticamente a formação da personalidade.
Não é possível deletar a memória
— O registro na memória é involuntário. Todas as idéias, pensamentos, imagens mentais, emoções, sejam tolas ou inteligentes, lúcidas ou perturbadoras, são registradas automaticamente.
— Professor, mas nos computadores eu registro o que eu quero! — afirmou Márcia.
— Sim, mas, na memória humana, você não tem essa opção. O fenômeno RAM (Registro Automático da Memória) arquiva tudo automaticamente. Isso é fácil de perceber pela nossa experiência. Porém devemos também compreender que todas as experiências que têm mais emoção, sejam prazeres ou sofrimentos, tranqüilidade ou medo, são registradas de maneira privilegiada. Por isso, recordamos com facilidade
principalmente os momentos mais marcantes de nossas vidas. — Após dizer tais palavras, o professor perguntou: — Podemos apagar ou deletar o que está arquivado?
Luís se adiantou e respondeu:
— Creio que sim, pois nos computadores a coisa mais fácil é apagar os arquivos.
— Você já tentou apagar da sua memória um problema que atravessou?
Luís há dois dias tinha perdido duzentos reais. Tentava apagar da sua mente essa perda, mas, quanto mais tentava, mais pensava no assunto.
— Não! — disse Luís sem delongas.
Em seguida, Júlio César perguntou a Alex com delicadeza:
— Você tentou deletar da sua memória quem você ofendeu ou decepcionou?
O aluno ficou vermelho, percebeu onde seu professor quis chegar. Alex havia levado um fora da sua namorada há um mês. Por querer controlá-la e ao mesmo tempo achar que podia ficar com uma garota por semana, ela rompeu a relação e nem telefonema dele atende mais. Ele tentava esquecê-la, mas pensava dia e noite nela.
— Queria deletar alguns arquivos ruins da minha memória, mas não consigo — disse com sinceridade, começando a ficar consciente da injustiça que praticou com Fernando.
O professor tomou a dianteira e disse:
— Ninguém consegue deletar a memória, até porque ninguém sabe onde esses arquivos estão alojados no córtex cerebral, que é o local do cérebro onde as experiências são registradas. Só podemos superar os traumas atuando nos sintomas que eles desenvolvem ou resgatando nossa história, nos auto-conhecendo, descobrindo como e quando os desenvolvemos. Às vezes, quando o trauma é importante, precisamos da ajuda de profissionais da psicologia.
Em seguida, suspirou e disse que a agressividade e humilhação geradas pelo fenômeno bullying eram arquivados de maneira privilegiada na memória, podendo gerar traumas significativos.
Alguns alunos gelaram. Começaram a entender que pequenos gestos podem gerar grandes conseqüências. Vendo os alunos pensativos, o professor olhou para Fernando e corajosamente procurou resolver o conflito em sala de aula:
— Os fracos julgam e excluem os outros por serem diferentes, mas os fortes compreendem e incluem. Que é ser ofendido? Que fazer quando ofendido? Ter raiva? Sair da classe? Vingar-se? Ou fazer a oração dos sábios?
O professor, influenciado por Romanov, ensinava perguntando, provocava a mente de seus alunos como Sócrates fazia com seus discípulos. Era impossível não pensar. Curioso, Fernando perguntou:
— Nunca ouvi falar da oração dos sábios. Qual é?
— O silêncio. Só o silêncio contém a sabedoria quando a vida está ameaçada, sob risco, pressão, ofensa — disse o sábio professor. E adicionou: — Quem consegue raciocinar com brilho quando está nervoso? Na esfera do silêncio você deve abrir o leque da inteligência, romper as algemas dos arquivos doentios que financiam o medo, o ódio, a timidez, e procurar a mais excelente resposta.
Enquanto orientava Fernando, Alex ficava em profundo silêncio pensando. Os alunos estavam aprendendo a caminhar nas trajetórias do seu próprio ser. Estavam aprendendo a proteger sua emoção, reeditar os arquivos doentios do seu inconsciente.
O professor acreditava que se os alunos de todas as escolas da Terra aprendessem a fazer esse passeio pelo seu interior, aprendessem a arte da reflexão e, ao mesmo tempo, desenvolvessem habilidade para dialogar sem medo sobre seus problemas e conflitos, poder-se-ia prevenir milhares de traumas e até evitar suicídios.
Júlio César pediu para todos os alunos procurar seus pais, professor ou um amigo experiente em quem confiavam para contar os problemas mais graves. Ele valorizava muito a psiquiatria e a psicologia clínica, mas sentia que devíamos investir nossos esforços na prevenção pela educação, pois todos concordavam que a prevenção era a área mais fundamental da medicina.
Momentos depois, o professor perguntou de maneira genérica:
— Alguém aqui já se sentiu diminuído por algum colega?
Por incrível que pareça, mais de 80% da classe levantou as mãos. Alex também se sentiu diminuído nos primeiros três anos de escola. Ele era muito ansioso e espalhafatoso, não tinha coordenação motora, sentia-se um péssimo esportista. Sua atitude de agredir era uma projeção da agressividade que recebeu e que nunca foi resolvida. Por refletir sobre sua história, caiu em si.
Beija! Beija! A festa depois do caos
O professor ficou preocupado com o número de pessoas que levantou as mãos. Não esperava uma proporção tão grande. Em seguida, escreveu na lousa:
Nunca valorizem um defeito físico de alguém ou um comportamento de alguém que vocês achem estranho. Valorizem suas qualidades e respeitem as diferenças. Jamais coloquem apelidos que diminuam as pessoas. Mesmo em tom de brincadeira, não copiem os programas de humor que debocham das características dos outros para fazer a platéia rir. Os verdadeiros pensadores são apaixonados pela humanidade, conseguem colocar-se no lugar dos outros e enxergar o invisível.
Nesse momento, Alex captou Fernando com os olhos. Fez um sinal de positivo para ele, como se quisesse pedir desculpa. Os que perceberam esse gesto brincaram, gritando:
— Beija! Beija!
Percebendo que Alex ficou inibido diante da turma, Fernando levantou-se, foi até seu ofensor e disse-lhe:
— Eu o perdôo.
Numa atitude surpreendente, Alex levantou-se, deu-lhe um abraço e respondeu:
— Desculpe-me, eu fui um fraco.
— Não, reconhecer seu erro, o torna forte — reagiu Fernando.
A classe aplaudiu. O clima estava tão agradável que o professor falou sobre o excelente código de ética do personagem mais famoso da história, o Mestre dos mestres, Jesus:
— Não façam para os outros o que vocês não querem que os outros façam para vocês.
O Mestre dos mestres respeitava incondicionalmente o ser humano. Ele valorizava mais a pessoa que erra do que os erros cometidos. Tratou com gentileza até seu traidor, Judas Iscariotes. Deu-lhe oportunidade até o último momento para ele reescrever sua história.
Em seguida, o professor disse que, se os alunos não querem ser ofendidos, que não ofendam. Se não querem ser rejeitados, que incluam. Se desejam ser elogiados, elogiem. Se querem o carinho e a atenção dos outros, dêem-lhes primeiramente seu apoio, coloquem-se à disposição de quem precisa. A ética de Jesus Cristo está no centro da educação para a paz. Se as sociedades vivessem esse princípio, não haveria lutas religiosas, os generais seriam jardineiros, os policiais, poetas, as indústrias de armas se transformariam em indústrias de alimentos, as guerras seriam apenas cicatrizes nos textos de história.
Os alunos ficaram fascinados. De repente, um deles fez uma pergunta fatal:
— Professor, você também foi humilhado por seus colegas na escola? — indagou Mário, pensativo e sem inibição.
Pego de surpresa, Júlio César fez a oração dos sábios. Após um momento de reflexão, resolveu contar alguns capítulos da sua vida que lhe trouxeram grande sofrimento. Sentiu que era o momento de se humanizar, cruzar a sua história com a história dos seus alunos. Inundado por intensa emoção, ele disse:
— Nos primeiros anos de escola eu sofri muito. Perdi meu pai quando eu tinha nove anos de idade. Jogávamos futebol, pescávamos e passeávamos juntos freqüentemente. Ele era meu melhor amigo. Era valente, forte, parecia imbatível, mas um dia sofreu um infarto fulminante. Da noite para o dia, perdi meu ponto de apoio — disse o professor, intensamente comovido.
Após uma pausa, continuou: — Além da dor insuportável de perder meu pai, um ano depois alguns colegas começaram a zombar de mim por causa da minha estatura e pelo tamanho do meu nariz. Estão vendo meu enorme tamanho? — brincou.
Os alunos sorriram. Em seguida, brincou novamente:
— Estão vendo essa bela ferramenta de respirar? Meu nariz não é lindo? — e apontou para seu avantajado nariz de descendente de italiano. — Sabem qual eram os apelidos que me machucaram muito na adolescência? — E respondeu em seguida: — Tampinha e Tucano. Vejam que as palavras até combinam — falou em tom de humor para uma classe que se deliciava em ouvi-lo. — Felizmente superei meus conflitos, mas vocês não imaginam a dor que senti por me sentir rejeitado. A dor da rejeição é uma das mais dramáticas experiências psíquicas. Sentia-me inferior aos amigos. Era inseguro, fechado, tinha medo de me aproximar de uma garota. — E brincou: — Hoje sei que sou lindo!
Para finalizar, o professor pediu para os alunos se levantarem, se abraçarem e dizerem uns para os outros que eram lindos. Foi uma festa. O diretor, ouvindo as gargalhadas, assustou-se. Dirigiu-se apressado até a classe. Ficou boquiaberto com tanta alegria.
Romanov também se dirigiu apressadamente ao local. Entrou no clima, abraçou muitos alunos. Afinal de contas, um dia os colegas e professores se separariam. Muitos teriam saudades uns dos outros, mas nunca mais se veriam. Portanto, tinham de aprender a se curtir e a criar amizades com raízes que suportariam os invernos da existência.

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